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Prólogo

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Prólogo

Mensagem por mimacarfer em Ter Out 02, 2018 6:00 pm

Quando os anjos dizem adeus
Alguns invernos são mais difíceis que outros e, às vezes, a solidão pode ser mais assustadora que a morte. Esse é o pensamento que passou pela minha cabeça logo após desligar o telefone naquela madrugada fria e chuvosa que começaria a marcar o início de uma radical mudança em nossas vidas. As lágrimas queimavam não o meu rosto, mas sim meu coração, e eu sentia uma dor jamais sentida por mim antes quando me recordei do passado. Cada momento vivido ao lado não só da Hyori, mas de todos os membros do nosso pequeno grupo, marcaram uma época que deixara saudade... E muitas cicatrizes a todos. Cicatrizes que pelo jeito ela não conseguira superar. A verdade é que, no fundo, todos nós passamos a juventude defendendo-a e no final acabamos a abandonando. Tentando controlar meu tom de voz, peguei o pequeno caderno de capa preta que ainda estava manchado de sangue e comecei a digitar os números no celular, um a um.


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Re: Prólogo

Mensagem por mimacarfer em Ter Out 02, 2018 7:26 pm

Oh Da Som 
Mapo-gu, 26 de Janeiro de 2018 - 22h15
 
Aquele havia sido um dia bastante cansativo para Da Som na pediatria do Severance Hospital. Além de visitar todos os seus pacientes costumeiros da internação duas vezes, ao chegar e antes de sair, ela ainda havia atendido algumas crianças da emergência e, por isso, as várias horas trabalhadas, misturadas às poucas horas de sono do dia anterior, faziam com que sentisse seu corpo lento e pesado.
 
À medida que caminhava apressadamente pelos corredores, os colegas que estavam de plantão ou que partiam para suas residências desejavam-lhe boa noite, algumas vezes afoitos pelo repouso de seus lares ou pela preocupação de não perder o metrô ou ônibus que passaria em alguns minutos.
  
Já passava das oito quando a médica finalmente entrou em casa. Fazia bastante frio naquela noite e uma fina chuva começava a cair lá fora, lavando as ruas de Mapo-gu, região para a qual a jovem médica se mudara a cerca de dois meses, após concluir seus estudos e voltar do Japão, lugar onde residira nos últimos seis anos. Apesar de ser uma área mais agitada do que gostaria, a facilidade de pegar a linha 5 do metrô e estar em poucos minutos no trabalho acabara por convencê-la a alugar o apartamento no prédio de tijolinhos aparentes que, apesar de pequeno, era bastante aconchegante e confortável para alguém que morava sozinha.
  
No fogão, a chaleira começava a apitar, anunciando que a água que colocara ali antes de entrar no banho já estava quente o suficiente para o seu chá noturno e que logo ela teria um descanso mais que merecido, porém, antes mesmo que pudesse chegar lá, o barulho insistente do telefone tremendo sobre a mesa de jantar lhe chamou a atenção, parando com sua aproximação. O visor anunciava três chamadas perdidas, começando a tocar novamente em seguida:
 
- Oh Da Som? Aqui é a Myung-Hee. Desculpa por ligar a essa hora de forma tão insistente, mas precisava falar com você... - Por um instante ela se calou, como se procurando palavras para falar - Eu sei que não nos falamos há muito tempo e que você deve estar se perguntando como eu consegui seu telefone, mas depois teremos tempo para explicações - A garota fez uma nova pausa que pareceu durar uma eternidade, e em seguida continuou, dessa vez com a voz mais fraca e tremida - Eu sinceramente não sei como dar uma notícia dessas, então vou tentar ser o mais direta possível... A Hyori foi encontrada morta nessa manhã, e como vocês eram próximas, acredito que você queira comparecer ao velório. Vou te mandar uma mensagem com o endereço e horário, pode ser?


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Re: Prólogo

Mensagem por mimacarfer em Ter Out 02, 2018 7:28 pm

Kwon Se Jong 
Busan, 26 de Janeiro de 2018 - 22h30
 
O tempo passara rapidamente para Se Jong naquele dia frio de inverno em Busan. Começara o dia ajudando sua mãe com as compras do restaurante, ligando para diversos fornecedores e resolvendo o pagamento de algumas mercadorias que haviam recebido na semana anterior. Em seguida, logo após o fim do almoço no Obanjang, fora com Taeyang até a oficina ver se precisavam de ajuda e, mais no fim da tarde, dera uma volta rápida pela Songdo Beach. Não entendia bem o porquê, mas algo o incomodava desde que acordara naquela manhã, como se algo de ruim estivesse para acontecer. Agora, já em casa, observava a chuva fina que caia pela janela de seu quarto enquanto o irmão estudava não muito longe dali, parecendo completamente entediado.

- Não sei por que a gente estuda esse tipo de coisa... Eu nunca vou usar isso no dia a dia - disse, fechando o livro em seguida e levantando-se - Que tal eu pegar algo na cozinha pra gente beber e jogarmos algo divertido?
 
O garoto aguardou sua resposta por um tempo e, em seguida retirou-se, fechando a porta atrás de si. De longe era possível ouvi-lo abrindo a geladeira, assim como o som da tv, que sua mãe costumava assistir antes de dormir ou, às vezes, até mesmo enquanto dormia no sofá.
 
Não muito longe dali, na mesinha ao lado da sua cama, seu celular começou a tocar, fazendo-o despertar de seus pensamentos e parando antes que conseguisse chegar até ele. Ao pegá-lo, porém, notou que havia uma mensagem de voz no aparelho:
 
- Se Jong? É a Myung-Hee. Eu sei que está tarde e que você pode estar dormindo, mas eu precisava falar com você urgente... - a jovem, que Se Jong conhecia tão bem, tinha uma voz estranha naquela noite, como se tivesse chorado - Você precisa vir pra cá o mais rápido possível amanhã. Aconteceu uma coisa com a Hyori na noite passada... O Hyun-Su... Ele vai precisar do nosso apoio. Vou te mandar uma mensagem com o endereço. Por favor, não falte. Estarei te esperando.
 
Mal acabara de ouvir a mensagem, Taeyang entrou no quarto, branco como se tivesse visto um fantasma:
 
- Se Jong, você não era amigo de escola do Lee Hyun-Su, herdeiro do Vatech Group? Acabaram de dizer na tv que a irmã dele, uma tal de Hyori, foi encontrada morta essa manhã.


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Re: Prólogo

Mensagem por mimacarfer em Ter Out 02, 2018 7:29 pm

Myeong Hae 
Dobong-gu, 26 de Janeiro de 2018 - 22h45

Hae havia tido um dia normal e tranquilo, apesar da correria. Acordara cedo, como de costume, para preparar e levar Mi Cha até a escola e em seguida ir para o trabalho, onde tivera uma reunião logo pela manhã para a apresentação de um novo projeto que seria desenvolvido. Desde então, passara a tarde concentrada em um relatório que precisava ser entregado antes do fim, o que acabou lhe prendendo após o horário e fazendo com que precisasse pedir a Arthur que buscasse a filha na escola.

Quando finalmente conseguiu terminar tudo e ir para casa, uma chuva fina e constante caia, despertando nela uma vontade de sentar e observar o movimento da cidade enquanto tomava algo quente e descansava. Por mais que gostasse de chegar e encontrar Mi Cha sorridente gritando por ela e lhe contando como fora o dia na escola, naquela noite estava tão cansada que desejou por um instante que a pequena já estivesse dormindo quando chegasse em casa. E assim aconteceu.

Através da porta de vidro do Coffee Bay, Hae pode ver Arthur secando os copos atrás do balcão. Ao avistá-la, o rapaz sorriu, acenando para ela com uma das mãos e afastando os cabelos que lhe teimavam em cair no rosto com a outra.

- A Mi Cha tentou esperar, mas o sono foi mais forte que ela. Já a levei pra cama, inclusive - Arthur tinha um carinho tão grande por Mi Cha e a garota por ele que às vezes Hae chegava até a sentir ciúmes da relação - Senta um pouco. Eu já estou terminando de fechar... Vou pegar um café pra você e subimos juntos - disse, já caminhando em direção à máquina de café antes mesmo que ela tivesse tempo de lhe responder.

Não demorou e ele retornou com dois copos, colocando-os no balcão e voltando a secar os últimos copos.

- Como foi o seu dia? - perguntou, parecendo realmente interessado na resposta - Isso aqui hoje foi uma loucura, você precisava ver... E a Mi Cha chegou realmente empolgada da escola. Parece que a professora vai fazer um tipo de excursão com eles, mas eu não entendi direito. Acho que você deveria perguntar direito pra ela amanhã.

Alguns minutos se passaram enquanto conversavam e terminavam o café, até que finalmente apagaram as luzes e subiram a escada que ficava na lateral da cafeteria, rumo à casa que ocupavam desde que se mudaram para Seul. Embora pequeno, o lugar era bastante confortável e facilitava a vida de ambos devido à praticidade de ser acima do local de trabalho de Arthur e relativamente próximo à escola em que Mi Cha estudava.

Mal entraram, porém, e o celular de Hae começou a tocar dentro de sua bolsa, fazendo com que tanto ela quanto Arthur se olhassem com estranheza, questionando quem estaria ligando àquela hora da noite.

- Vou ver se a Mi Cha acordou e se está coberta. Atende logo! - disse ele, afastando-se rapidamente após terminar de trancar a porta, deixando-a confortável para atender a ligação. No visor do celular, um número desconhecido:

- Hae? - perguntou uma voz feminina que lhe parecia familiar do outro lado, embora não conseguisse identificar de quem era - Aqui é a Myung-Hee. Desculpa por ligar a essa hora... Eu sei que não nos falamos há muito tempo e que você deve estar se perguntando como eu consegui seu telefone, mas precisava falar com você... - por um instante ela se calou, como se procurando palavras para falar - Eu sinceramente não sei como dar esse tipo de notícia, então vou ser direta... A Hyori foi encontrada morta nessa manhã, e como vocês eram próximas e estudaram juntas, acredito que você queira comparecer ao velório amanhã. Vou enviar uma mensagem com o endereço e horário. Por favor, compareça.


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Re: Prólogo

Mensagem por Persephone em Qua Out 03, 2018 12:04 am

I tied myself to this sand castle filled with thorns  
Dias atribulados eram os dias favoritos de Se Jong. Sempre que sua mente ficava ocupada trabalhando no restaurante, na oficina ou simplesmente mantendo um diálogo com os seus parentes o deixavam distante de pensamentos depressivos e preocupados com sensações que a razão era incapaz de explicar. Assim que abriu os olhos naquele dia, ele torceu para que cada minuto do dia fosse preenchido com tarefas bem complicadas. Porque tão logo abriu os olhos, sentia que seu coração fora preenchido por uma intensa angústia. Do tipo que fazia tempo que não sentia.

Por mais que tivesse se esforçado para se manter neutro e positivo naquele dia - algo que fazia por sua família e para o bem dos negócios de sua mãe, mas raramente por vontade própria - quando retornou para seu recanto de descanso, a mente ociosa começou a divagar.

Antes de se recolher, ele tinha preparado um dechuchá - chá feito da fruta jujuba e que ajudava a esquentar o corpo em dias frios como aquele assim como, diziam os antigos, dava energia para rejuvenescer. Ele tomava só para se esquentar mesmo e por apreciar o sabor. Ao invés de usar porcelanas típicas, ele tinha uma caneca temática de Harry Potter com a casa Sonserina com a metade coberta com o líquido do chá. Ficou segurando entre as duas mãos para aquecê-las enquanto os olhos focavam na janela de seu quarto.

Não era um dia de tempestade - que passava a impressão de ira, raiva, descontando as frustrações em descargas elétricas, iluminando os céus e se fazendo ouvir. Ao invés disso, caía uma chuva fina e constante com ares de melancolia. Deu um gole em seu chá e olhou para a mesinha, repousando a caneca num suporte para não manchar a madeira. O celular estava carregando, do outro lado e atraiu sua atenção mais de uma vez, o que era algo atípico para ele. Contudo, parecia que era uma questão de segundos até a notícia chegar.

Voltou o olhar para a janela, arqueando uma das sobrancelhas e tentando entender que tipo de mensagem era enviada para ele.

Seu irmão começou a falar, substituindo o som da caneta por típicas reclamações adolescentes. Se Jong não olhou para trás, mas respondeu daquele jeito de hyeong (irmão mais velho) que tentava parecer responsável.

- Não, não vai, mas até lá, você precisa aprender para passar nas provas. Pense nos esforços da ommoni (mamãe/mãe) e traga orgulho a ela.

Porém, a sugestão de Taeyang trouxe um novo suspiro e, sem querer ceder, mas já cedendo, ele disse tentando transmitir desânimo.


- Eoh (sim). Faço esse sacrifício por você.

Taeyang saiu na frente enquanto o irmão terminava de tomar o chá. Ainda estava com frio, apesar da calefação e das roupas quentes que usava. Estava na metade do gole quando o celular começou a tocar. Assustou-se um pouco, olhando para trás. O coração disparou e isso o travou um pouco, prejudicando sua destreza para virar a cadeira de rodas para seguir até o telefone que se encontrava do outro lado.

Ao chegar lá, já o toque parou, mas o nome de Myung Hee apareceu em sua tela. Odiava falar ao telefone. Odiava principalmente quando não conseguia se locomover até ele e atender ligações importantes à tempo. Por um segundo pensou que ela fosse tentar ligar de novo, mas ao invés disso havia o aviso de uma mensagem. Tocou na tela, levando até o ouvido e prestando atenção em suas palavras, em seu tom de voz.

Quando achava que o coração não podia bater mais rápido, ele percebeu que mal conseguia respirar. O que de tão urgente tinha acontecido? Por que ela não esperou um segundo a mais? Por que a voz dela estava tão triste?

Massageou a têmpora com a mão livre e escondeu os lábios carnudos, tentando trazer algum foco para si mesmo.

Agora ela citava Hyun Su. O que tinha acontecido? Por que estava fazendo tanto suspense? Não esperaria pelo endereço, estava quase ligando para ela de novo quando o irmão retornou até o quarto como se tivesse acabado de ver um fantasma. Se Jong também não tinha melhor das expressões, estava abalado, nervoso e agora mais preocupado ainda.

- Eoh. O que aconteceu?- Fez sinal para que ele falasse logo até que sentiu como se o mundo estivesse se desfazendo em mil pedaços e ele caísse num abismo eterno. O celular caiu de sua mão e os olhos ficaram ligeiramente mais vermelhos por conta do repentino acúmulo de lágrimas. - Mwo…? ( O que…?)

[...]


Se Jong não conseguiu compreender num primeiro momento o que seu irmão tinha dito e precisou ver na internet e em outros canais a reportagem e as fotos para acreditar no que tinha acontecido. Podia ser alguém com o mesmo nome. Não podiam estar falando da mesma Hyori, né? Mas por que Myung Hee ligaria para ele daquele jeito, dizendo que era importante, se não fosse isso mesmo? A mensagem dela enviando o endereço apenas confirmou o que ele não queria acreditar que fosse possível.

As lágrimas escorreram sem que ele ao menos se desse conta. Toda aquela angústia finalmente se fazia compreender, mas não aliviava em nada seu peito. Só trouxera mais dor ainda com cargas de arrependimento, remorso, tristeza...saudade. Hyori podia não ser a sua melhor amiga, mas Hyun Su foi. E o que ele fez nos últimos seis anos por seu melhor amigo? Como seria capaz de ajudá-lo agora?

Fora que…

Apesar de achar que ela era diferente das outras pessoas, nunca passou por sua cabeça que ela seria capaz de fazer isso. Ele seria, mas era covarde demais. Já ela...Como? Por que?

Se Jong precisou de um tempo para se recuperar até conseguir ser mais prático. Não conseguiu ligar de volta para Myung Hee porque não queria que ela o ouvisse com a voz tão chorosa e triste. Respondeu à mensagem dela, avisando que estaria lá. Pegaria o trem para Seul, no horário mais próximo do combinado, mas que ela não precisaria se preocupar em buscá-lo. Ele chegaria.

Voltaria por eles.

E, também, por si mesmo.

Na manhã do dia seguinte, suas olheiras e os olhos inchados traziam à tona a ausência de sono e excesso de lágrimas. Comeu quase nada de café da manhã e já tinha os planos traçados. Não pretendia pernoitar em Seul, mas estava levando uma bolsa com duas mudas de roupa, caso fosse necessário. Comprou uma passagem de trem para Seul num horário que não fosse cedo demais, tampouco desse margem para atrasos. Preferiu ir sozinho porque aos fins de semana, o movimento do restaurante era maior, mas agradeceria por uma carona até a estação.

Pretendia voltar ainda naquela noite, mas levava carregador e dinheiro/cartão o suficiente para tapar qualquer imprevisto. Tinha um hotel em mente, de um contato antigo de sua mãe, para o caso de precisar ficar por lá.

Como era inverno, ele estava preparado para um dia bem frio - usava várias camadas de roupa, todas pretas em respeito ao luto: uma camisa de manga comprida e gola alta, um suéter preto por cima, sobretudo, calça comprida social e uma calça segunda pele por baixo. O fato de não ter muito tato nas pernas não o livravam do perigo do frio, na verdade, era até um pouco mais perigoso. Também colocou uma manta de lã sobre as pernas. Uma bolsa ficaria pendurada na cadeira, mas documentos, celular e cartões ficariam distribuídos por sua vestimenta.

Estava pronto para retornar a Seul.



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Re: Prólogo

Mensagem por Ayleen G em Qua Out 03, 2018 7:30 am


I've gotta keep the calm before the storm


◣◥ ◤◢ ◣◥ ◤◢
Hae atira seu corpo para trás na cadeira, com a sensação boa de dever cumprido. Seus dedos se entrelaçam atrás da cabeça, entre os cabelos, mantinha os olhos fechados e um sorriso nos lábios. Aquele emprego era mesmo muito complexo e trabalhoso, mas era onde gostava de estar, era onde havia lutado para estar. Após alguns segundos naquela posição, ela abre seus olhos e começa a organizar sua mesa para poder, finalmente, ir para casa. Havia algumas pessoas na empresa, como era o costume. Não eram rígidos com horários, poderiam faltar vez ou outra com aviso prévio, contanto que batessem suas metas e objetivos até o prazo estipulado. Hae só havia atrasado com o relatório porque precisava de algumas decisões que foram tomadas pela manhã. Sendo assim, ela envia a documentação por e-mail para seu supervisor, e se despede dele e dos colegas antes de sair.

A chuva fina caia do céu quando colocou os pés para fora da empresa e, ao invés de correr para evitar se molhar, Hae levantou a cabeça e sentiu os pingos frios baterem em sua face. Apesar da vontade de ficar apenas bebendo algo e observando o movimento da cidade, sabia que era muito tarde, e precisava ir para casa. Esperava que Mi Cha já estivesse dormindo àquela hora, Arthur era permissivo demais e por vezes acabava deixando que ela ficasse acordada até tarde sob o pretexto de esperar pela mãe, um verdadeiro tiozão. Além disso, estava cansada demais para dar toda a atenção que a filha merecia e precisava. Só queria mesmo era descansar.

Já estava praticamente em casa quando percebeu que algumas luzes do café ainda estavam ligadas. O dia havia sido cheio, para a alegria de Arthur, ou não estaria secando copos àquela hora. Hae sentia a necessidade de tomar qualquer coisa quente, então não pensou duas vezes antes de entrar no café. Arthur a recebeu com um sorriso e um aceno, os teimosos cabelos caindo no rosto. Hae já havia dito para ele cortar, mas não adiantava, Art adorava ter aquele cabelo sempre nos olhos.

-Quase achei que encontraria vocês dois brincando de salão de beleza quando chegasse. - ela riu, não era incomum aquela cena, o "tiozão" não se incomodava nem um pouco em ter o rosto rebocado pelas maquiagens infantis e o cabelo todo cheio de chuquinhas. Talvez fosse por isso que Mi Cha o adorava tanto, ele tinha mais jeito com crianças do que Hae em qualquer época de sua vida. - Descafeinado, Art, preciso mesmo dormir cedo hoje. - nem um minuto depois a xícara fumegante estava no balcão à sua frente. Hae suspirou e envolveu a caneca com as duas mães, aquecendo-as da chuva que havia pego no caminho.

-Tive que terminar um relatório ainda hoje, desculpe ter que pedir pra você pegar Mi Cha na escola. De novo... - não era incomum ela ter que pedir esses favores a ele, que de nenhuma maneira parecia se importar em deixar o café para tal. - Deve havia algum bilhete com o aviso e pedido de autorização na agenda dela. Eu olharei antes de dormir, mas não tenho nem coragem de dizer que ela não pode ir, se está tão empolgada assim. - sorrindo, tomou um gole do descafeinado, sentindo o líquido esquentá-la no mesmo instante. - Não entendo como pode ser tão alegre e sociável. Deve ter aprendido com o tio. - Hae riu. De fato, a filha parecia o oposto do que ela própria havia sido quando pequena: adorava brincar com outras crianças, praticar qualquer tipo de esporte (apropriado para sua idade) e, vez ou outra, Hae percebia que ela tinha uma espécie de liderança inata. Além, é claro, de ser muito esperta. Hae brincava que a pequena havia herdado a sua inteligência, mas todo o resto aprendera com o tio. Enganava a si mesma. Sabia muito bem de quem ela havia "puxado" aquela parte extrovertida e esportista.

O restante da conversa entre os dois foram trivialidades do dia-a-dia. Ambos terminaram de ajeitar o estabelecimento para o dia seguinte, e foram juntos para a casa onde moravam, logo acima do café. O local estava silencioso, sinal de que Mi Cha estava em sono profundo, e foi por isso que Hae sobressaltou quando escutou o telefone tocar. Concordando com a cabeça com Arthur, ela olhou para a tela do celular: um número desconhecido. Quase pensou em não atender, mas se havia alguém ligando àquela hora, certamente era alguma urgência.

-Alô? Myung-Hee? Como...
- mas ela nem lhe deu tempo para perguntar como havia conseguido seu número. Hae havia se afastado de todas as pessoas de sua antiga escola, e não acreditava que fosse tão fácil encontrá-la, mesmo Hyori, que era a pessoa mais próxima de si. E era exatamente sobre ela que Myung-Hee queria falar. - Hyori? O que aconteceu? Como ela... Claro, passe o local, eu irei amanhã com toda a certeza.

Atordoada, Hae desligou o telefone, olhando para a tela, ainda incrédula. Hyori havia sido a única pessoa que poderia ter chamado de amiga durante a época da escola em Seul, e mesmo não sendo oficial, seria a madrinha de Mi Cha, afinal, a pequena estava neste mundo por causa dela... Arthur deve ter notado o silêncio de Hae, que ainda estava parada no mesmo local, e voltou para a sala para saber o que havia acontecido. Sem dizer nada, Hae largou suas coisas no sofá e abraçou o amigo, chorando.
   
xxx

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Re: Prólogo

Mensagem por Kara em Qua Out 03, 2018 8:32 am

Oh Da Som  

Da Som amava seu trabalho. Os estudos tinham basicamente ocupado a maior parte de sua vida, mas principalmente dos últimos seis anos, nos quais decidiu refugiar-se no Japão. Não era tão longe quanto gostaria, mas era perto o bastante de sua terra natal e de seus pais. Secretamente ela esperava um convite para voltar, mas isso nunca aconteceu.

Quando seu motivo para ficar em terras nipônicas desapareceu, ela viu-se com saudades da família, das ruas e prédios conhecidos, e de tempos que não voltariam. Não sabia muito bem por quê, mas estava dando adeus de novo para os amigos que fez naquele lugar e voltou, transformada, para a Coreia do Sul.

Uma das melhores universidades da Ásia lhe concedeu a chance de trabalhar também em um dos melhores hospitais da Coreia. Parecia justo, parecia correto. Ela esforçava-se somente para isso durante muito tempo. Agora estava vivendo o sonho. Morava sozinha, cuidava de crianças e trabalhava o dobro do que tinha estudado naqueles anos todos. Era desgastante, mas talvez ocupar a mente, não o coração, fosse algo com o qual estava viciada em fazer.

Dormia menos, comia menos ainda, mas foi um dos motivos que fez com que perdesse medidas a cada mês que passava. Quem a observasse de fora dificilmente diria que aquilo era um sonho mesmo. Porém, ela genuinamente gostava daqueles sorrisinhos de alta e dos mimos que ganhava de crianças de vez em quando. Fazia sentir que era útil e querida.

Quando o turno acabava, restava o solitário caminho para casa. Sem o jaleco, curvou-se para seus colegas de profissão, retribuindo os cumprimentos e gentilezas, e saiu na noite gelada, sem detalhes sobre sua vida ou conversas fora do profissional. Afinal, era uma novata naquele lugar. Apesar de sorrir, sentia vergonha de se aproximar muito daquelas pessoas experientes, mais velhas… E que eventualmente a achariam desagradável em algum ponto da vida ou achariam que tinham intimidade o bastante para falar ou fazer coisas. Preferia que continuassem assim, todos bons colegas.

Seguiu para o metrô, que já não era muito cheio naquela hora -- fazer horários fora do comum tinha suas vantagens --, e aproveitou que podia sentar-se para encostar-se no banco e fechar um pouco os olhos. O caminho para casa levava cerca de meia hora. Parecia bom e rápido.

Àquela hora, encontrava universitários festejando na região com seu grupinho de amigos. Era um pouco estranho, sim, viver perto do agito, mas em dois meses ela ainda não tinha se irritado completamente com aquelas pessoas, elas apenas a faziam sentir saudade de alguma coisa, porque estava um tanto solitária agora.

Ao chegar no apartamento, verificou, apenas por hábito, a caixinha de correio, e subiu as escadas para seu lar doce lar. Deixou o casaco grosso e as botas na entrada, e botou a chaleira para esquentar antes do banho. Naqueles dias frios dava vontade de se trancar no banheiro e trabalhar de casa.

Com os músculos mais relaxados, ela foi até a cozinha, que sem dúvidas era a maior parte da casa, para servir o chá. Estava pensando no que poderia comer, mas o som inconfundível do toque de seu celular (Bolbbalgan4 - Some) a fez levar um susto. Será que tinha alguma emergência no hospital? Esqueceu algo?

Eram muitas chamadas perdidas. O celular chamou de novo. Ela não tinha aquele número, quem seria?

- Yoboseyo? (Alô?) - sentiu um frio na espinha ao reconhecer aquela voz, mas não saber exatamente de onde, mas não levou muito tempo, porque ela se identificou e tornou tudo mais estranho. - Ah… Myung-Hee-ssi…? Ne… - falou meio sem jeito, confusa, e, sem saber o que fazer, foi desligar o chá, depois afastou a cadeira da bancada para sentar-se, com a caneca quente. Foi uma boa atitude. Mesmo antes de saber o que tinha acontecido, a ansiedade já começava a subir para sua mente.

O que será que ela queria? Por que aquele silêncio e mistério todo?

- MWO? (QUÊ?) -  deixou escapar, e errou a alça da caneca, felizmente não estava com ela na mão, mas deu uma batida nela com as costas da mão, queimando de leve, o que a fez acordar. - Mwo? Eu não entendi…  O que foi que você disse? - ela ouviu a continuação. O que estava acontecendo?

- Ne.. Myung-hee-ssi… Myung-hee-ssi! - falou alto, sentindo o coração acelerar no mesmo instante. Que tipo de brincadeira era aquela?

Ela desligou o telefone, sem se despedir e o empurrou para longe na mesa, cobrindo a boca, como se pudesse negar a notícia simplesmente desligando a ligação. Ele vibrou novamente, com o endereço do lugar, que ela pôde ver dali mesmo.

- Ah.. hah…. aaaaaaaaaahh

Dobrou o corpo, levando o braço à barriga e começou a chorar sem parar.

(...)

No escuro do quarto, debaixo das cobertas, Da Som olhava as fotos guardadas por um backup de aplicativo, e relia as pouquíssimas mensagens que tinha trocado com a menina, meses atrás. Eram momentos muito breves de conversa, quando ela estava ocupada estudando, e que foram se tornando cada vez mais escassos, até que viraram sem propósito e vazios.

“Tudo bem?” “Tudo”  “Aqui é bem legal.”  “Se cuida”

Meses depois foi o fim. Para sempre.

O pior de tudo é que não podia mandar mensagens. Para quem? Hyun Su… Como ele devia estar abalado com tudo aquilo! Mesmo que ainda tivesse contato com as pessoas, poderia ter a cara de pau de falar com elas?

“Amiga”... Como é que podia ser chamada assim? Ela nem desconfiou que houvesse algo errado. Também não tinha tempo para perguntar como ela estava e a simples conversa a fazia lembrar-se dos tempos de escola, que ela tanto queria esquecer.

Cada vez que duvidava daquilo, a mensagem com o endereço e horário do velório estava marcada ali. Gostaria de poder perguntar a alguém o que tinha acontecido, mas não era insensível assim.

Eventualmente, vencida pelo cansaço físico e emocional, ela acabou dormindo, o que para ela pareciam dez minutos.  O despertador berrava. Ela deu um golpe nele e sentou-se, confusa. Estava um caco completo. Abraçou as próprias pernas e ficou meia hora daquele jeito.

Ah. O trabalho.

Resgatou o celular e mandou uma mensagem para sua supervisora.

“Unnie. Eu sinto muito. Terei de faltar ao trabalho hoje.
Uma amiga minha acabou de falecer”


Que absurdo! Era muito absurdo escrever coisas assim. Todo o seu processo para se arrumar foi muito lento,  porque ela parava olhando para o nada diversas vezes e ela esquecia do que estava fazendo. Nem o chá tinha conseguido tomar no dia anterior. E foi muito difícil engolir um iogurte, que acabou mais da metade no lixo. Conforme fazia seus preparativos, a expressão morreu de vez e de repente ela já estava na porta de casa, com seu longo casaco para enfrentar o dia tão frio. Não soube bem o porquê, mas tinha um chaveirinho de pelúcia escondido ali e muito bem apertado.



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Re: Prólogo

Mensagem por mimacarfer em Sab Out 06, 2018 5:57 am

Kwon Se Jong 
Gangnam-gu, 27 de Janeiro de 2018 - 10h05
 
O caminho de trem de Busan a Seul pareceram durar uma eternidade entre lembranças e outros pensamentos diversos, e a viagem de táxi até o endereço, que pelo que ele se lembrava era a mansão da família de Hyun-Su e Hyori, não foi diferente.

Enquanto os prédios passavam pela janela de vidro, Se Jong se lembrou de um dia em que caminhava pelos jardins da escola em direção a um de seus treinos e vira Hyori de cabeça baixa, completamente envergonhada pela implicância de alguns garotos mais velhos.


Naquele dia ele não fizera nada além de observar, enquanto outra garota, que mais tarde ele conheceria como Oh Da Som e descobriria que estudava em sua sala, correu em defesa da garota, gritando para que a deixassem em paz. O olhar de tristeza que vira naquele dia nunca mais lhe sairia da cabeça. Naquela época seria impossível imaginar tudo o que aconteceria em seguida, e como aqueles improváveis amigos se aproximariam... E se separariam tempos depois.

As notícias que vira na noite anterior diziam que o corpo de Hyori havia sido encontrado no banheiro de um dos hotéis que pertenciam à sua família e que tudo indicava ter sido suicídio, mas algo nisso lhe causava um tremendo desconforto, talvez porque a Hyori da qual ele se lembrava, frágil e indefesa, jamais fosse capaz de causar tal tipo de dor às pessoas próximas de si, muito menos ao irmão que tanto amava.

À medida que o táxi começou a diminuir a velocidade, pode ver a grande casa cinza, em que já estivera algumas vezes com Hyun-Su, tomar forma em meio a um imenso jardim. Não mais chovia no momento e, embora algumas pessoas desconhecidas circulassem por ali, a maioria já deveria ter se dirigido para o local onde seria feito o funeral, uma pequena capela dentro da propriedade.

O motorista parou o carro calmamente e ajudou Se Jong a se acomodar na cadeira de rodas, despedindo-se com um cumprimento e partindo em seguida. Quando o carro finalmente se afastou, porém, ele pode ver Myung-Hee do outro lado da viela de entrada, parada perto de uma árvore, como se tentando passar despercebida por um momento.


A garota, que sempre fora uma das mais alegres que conhecera, pela primeira vez tinha os olhos tristes e fazia algo que ele nunca a vira fazer, nem nos piores momentos: chorar.


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Re: Prólogo

Mensagem por mimacarfer em Dom Out 07, 2018 11:19 pm

Myeong Hae 
Gangnam-gu, 27 de Janeiro de 2018 - 10h05
 
A noite havia sido longa para Hae. Assim que desligara o telefone de Myung-Hee, a garota não fez nada além de chorar até pegar no sono. Quando acordou a casa estava completamente em silêncio, o que era bastante estranho já que eram 7h de um fim de semana e nesse horário Mi Cha já devia estar acordada. Antes que se levantasse, porém, a garota surgiu na porta do quarto junto com Arthur, que carregava uma bandeja de café da manhã.

- Umma (mamãe), tá tudo bem? O tio Art disse que era pra te deixar dormir mais um pouquinho porque estava triste... - disse a garota se aproximando da cama devagarinho enquanto enrolava um cordão que havia em seu casaco, típico sinal de que não sabia o que fazer diante daquela situação.

Arthur aproximou-se da cama, colocando a bandeja ali enquanto sorria. Ele sempre fora um bom companheiro para Hae, principalmente em momentos difíceis e jamais a deixaria sozinha em um momento como aquele.

- Espero que você tenha conseguido dormir bem. Coma alguma coisa e se arrume, já está quase na hora que sua amiga enviou na mensagem. Eu e a Mi Cha vamos te levar até lá – falou rapidamente, retirando-se em seguida para não dar brecha para que ela não aceitasse.

[...]

O caminho até Gangnam pareceu durar uma eternidade para Hae, que naquele instante se lembrava de cada momento vivido ao lado de Hyori, como se visse um filme passar diante de seus olhos. Já não chovia mais lá fora, ao contrário da noite anterior em que os céus pareceram chorar por aquela morte, sem que ela nem mesmo se desse conta.

No banco traseiro, Mi Cha conversava com uma boneca e, às vezes, dava pequenas risadinhas, como se contasse um segredo a ela, enquanto Arthur dirigia ao seu lado, dando pequenas olhadelas tanto para ver como ela estava, quanto para se divertir com a pequena pelo retrovisor.


Quando finalmente atravessaram o grande portão de metal preto, adentrando a propriedade da família Lee, Arthur não pode deixar de comentar o quanto seus amigos pareciam ter dinheiro e como aquele lugar era incrível. Uma grande estrada principal levava até a casa principal, rodeada por um imenso jardim onde algumas poucas pessoas desconhecidas circulavam, a maioria já se dirigindo para o local onde seria feito o funeral, uma pequena capela dentro da propriedade.

Arthur parou o carro não muito longe da casa, no que parecia ser um tipo de estacionamento para convidados, ao lado de um grande carro prateado que parecia ser de alguém que também acabara de chegar, assim como eles.


- Eu vou dar uma volta com a Mi Cha enquanto você se despede da sua amiga. Quando terminar, me liga que venho te buscar para irmos pra casa. Tem certeza que vai ficar bem? – perguntou, parecendo ligeiramente preocupado com ela.


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Re: Prólogo

Mensagem por mimacarfer em Dom Out 07, 2018 11:21 pm

Oh Da Som 
Gangnam-gu, 27 de Janeiro de 2018 - 08h45
 
O caminho de sua casa até a mansão da família de Hyori e Hyun-Su em Gangnam pareceu durar uma eternidade para Da Som. À medida que prédios e árvores passavam através da janela do táxi que chamara logo cedo para levá-la até o funeral, algo dentro dela parecia reativar memórias que nem lembrava que estavam ali, dentro de si.

Ainda não entendia direito o que acontecera, mas de certa forma pouco importava, pois nada mudaria o que Myung-Hee dissera na noite anterior: Hyori estava morta... E provavelmente Hyun-Su estaria devastado por isso ainda mais do que ela.


Quando finalmente o motorista anunciou que haviam chegado, Da Som pode ver o escuro portão de ferro que levava até a casa principal por uma estrada cercada de árvores que parecia não ter fim. Já havia estado ali com Hyori algumas vezes nos tempos da escola, mas agora, seis anos depois, aquele tempo parecia tão distante que às vezes lembrava um sonho.


- Unnie... Como você acha que vai ser o futuro? - ouviu Hyori dizer, enquanto caminhava calmamente ao seu lado em uma tarde do último ano em que todos se reuniram ali para um piquenique - Será que ainda estaremos todos juntos e felizes como hoje?

Naquela época, a maioria das pessoas consideravam Hyori esquisita por não ter sentimentos devido à sua doença, porém, o que não percebiam é que ela apenas sentia de forma diferente. O leve autismo que possuía não a deixava mais estranha que os demais, como Hyun-Su uma vez lhe falara durante uma conversa enquanto a ouviam tocar violino em uma das salas de música da escola, apenas a tornava única.

Assim que o carro finalmente parou, Da Som pode ver a grande casa de pedra à sua frente. Dali até a pequena capela onde aconteceria o funeral a garota ainda teria uma pequena caminhada, porém estava muito adiantada.

O motorista despediu-se dela, desejando um bom dia, e afastou-se rapidamente assim que ela desceu do carro, deixando-a ali, sozinha.

De longe, porém, Da Som pode ver as costas de um homem que ela conhecia bem, tomando um caminho entre as árvores que, pelo que se lembrava, levava a um dos lugares favoritos de Hyori na propriedade: o jardim de sua mãe.


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Re: Prólogo

Mensagem por Persephone em Qua Out 10, 2018 10:12 pm

I tied myself to this sand castle filled with thorns  
Não seria exagero dizer que a viagem de Busan para Seul ia muito além da física. Não eram apenas quilômetros que diminuíam enquanto ele se aproximava do lugar que nasceu, cresceu e, de certo modo, morreu. O ticket comprado foi uma entrada para um portal que o levaria para uma silenciosa e perigosa viagem de volta ao seu passado.

A última noite tinha sido bastante desgastante, com pouco ou quase nada sono. E agora os olhos dele ardiam enquanto a mente fritava. Encostou a cabeça na janela enquanto se encolheu, tentando achar algum conforto em sua cadeira particular. Antes que percebesse ou pudesse evitar, algumas lágrimas silenciosas escorreram por seus olhos. Fungou, passando a mão de modo discreto e, cansado de ser uma atração, fechou os olhos.

De alguma forma, ele ficaria invisível e poderia sofrer seu luto em paz, longe de julgamentos.

Mesmo depois que abriu os olhos e pegou um carro particular para levá-lo até a residência dos Lee, ele ainda se sentia de olhos fechados. Porque não era exatamente o seu presente que ele via com precisão, mas sim seu passado.

Gangnam já tinha mudado bastante nos últimos seis anos. Havia uma constante necessidade de crescimento por ali, de modo que a reurbanização podia acontecer de um mês para o outro. Bairros que antes eram mais residenciais ou de prédios baixos agora ganhavam edifícios enormes e suntuosos. Mesmo assim, toda aquela beleza de metais e vidros espelhados que passava diante dele durante uma manhã de inverno, não foi o suficiente para tirá-lo daquele estado.

Os olhos mel estavam vendo Hyori de novo.

E ele andava.

Ainda era um garoto novo, cheio de energia e disposição. Tinha consumido as calorias necessárias para explodir na piscina naquele treino e quebrar os próprios recordes. Antes disso, ele obviamente foi pedir um pouco de sorte na sala de música, como uma arma secreta para aumentar seu ânimo. Estava feliz, mas o sorriso fácil vacilou quando identificou aquela cena acontecendo diante de si.

Seu corpo deu um passo à frente, mas não rápido o suficiente para chegar antes da outra menina. Não sabia dizer quem era a defensora de Hyori, apesar dela não ser de todo estranha - afinal, não era todo mundo que usava tantos lacinhos e enfeites fofinhos assim - mas ainda não conhecia Oh Da Som, apesar de serem da mesma turma há anos. Desviou o olhar para Hyori, vendo a tristeza em seu olhar.

Mais tarde naquele dia, contou o que viu ao melhor amigo e juntos tramaram uma pequena vingança contra os isekyas (fdps).

Se naquela época, ele soubesse que Hyori tinha coragem de tirar a própria vida, teria sido capaz de mudar aquela cena? De ter aparecido ao invés de deixar que ela fosse com Oh Da Som? Se ele fosse mais presente, conselheiro e amigo...as coisas teriam sido diferentes?

Ainda estava tentando digerir aquelas informações desconexas que tinha. O modo como ela foi encontrada no hotel não parecia ser algo que Hyori faria. Mas será que ele ainda a conhecia, afinal? Suspirou, massageando a têmpora à tempo de perceber que o táxi estava chegando até o destino final.



Sentiu um embrulho no estômago acompanhado de um nó na garganta. Ficou tanto tempo preso em suas lembranças que agora não sabia como agiria quando os estivesse diante de seu velho amigo e Myung Hee - não sabia quem mais estaria ali e também tinha medo de perguntar.

Felizmente havia parado de chover e o motorista do táxi o ajudou a sair do carro, apesar dele ter dito que estava tudo bem. Se Jong tentou transformar aquela cena no mais discreta possível, tentando se virar, mas aceitando as ajudas. Pagou a corrida no débito e ajustou a manta sobre suas pernas antes de começar a se guiar. As mãos estavam cobertas por uma luva também para proteger tanto do frio quanto das rodas da cadeira. Ficou um tempo ali parado, vendo o trânsito de pessoas estranhas. Sentia-se menor do que antes, mas tomou fôlego e um pouco de coragem para seguir em frente.

Os olhos logo identificaram um rosto conhecido, apesar de parecer bem estranho no momento. Não tinha lembranças de ver Myung Hee tão triste na sua vida. Não era para menos…

Antes que se lembrasse dos dilemas sobre falar com seus velhos companheiros ou não, Se Jong se viu guiando a cadeira de rodas até perto de Myung Hee. Não soube dizer quanto tempo ela demoraria para reconhecê-lo, mas assim que chegou...Ele não era mais aquele menino alto que olhava para baixo para encará-la com seus típicos sorrisos divertidos. Era um jovem adulto com metade da altura de antes, olhos cansados - e inchados pelo frio e choro - e um peso imenso em seus ombros, chamado remorso.



- Myungie… - Murmurou o nome dela com a voz grossa e aveludada. - Eu...Sinto muito…

Gostaria de consolá-la, oferecer seu ombro amigo e entregar algum lenço. Infelizmente, no momento, só podia oferecer a sua presença. Como há muito tempo não fazia.



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Re: Prólogo

Mensagem por Kara em Qui Out 11, 2018 2:15 pm

Oh Da Som 


Da Som achava difícil não ter com quem compartilhar aquela tristeza, quando a própria menina morta seria sua opção com quem contar. Perguntava-se por quê, mas não tinha respostas, ninguém para dizer o que houve, mas começava a inventar motivos por meio de memórias. 

Como falhou com ela! 

Sempre achou aquele local gigantesco um pouco assustador e opressor, mas quando estava com a menina, parecia tudo bem. Estar ao lado dela sempre parecia valer a pena. Agora cada aproximação pesava mais. 

Deixou mais lágrimas escorrendo pelo rosto. Não tinha de quem escondê-las mais. Tudo parecia um pesadelo sem fim. Uma mentira. 

Não respondeu ao motorista, desceu e ficou parada olhando a triste casa de pedra, vazia. Estava perdida, não sabia direito para onde ir.  Dava medo, porque parecia que a partir do momento que fizesse isso, ela estaria admitindo que a amiga tinha ido embora.

Assim, o homem que apareceu caminhando para o jardim  foi um tipo de seta automática, que inicialmente congelou seu coração, mas a fez achar que deveria segui-lo. Manteve distância, para observá-lo em silêncio, com muito, muito cuidado. 



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Re: Prólogo

Mensagem por Ayleen G em Sex Out 12, 2018 1:39 pm


I've gotta keep the calm before the storm


◣◥ ◤◢ ◣◥ ◤◢
Não se lembrava de ter pego no sono, apenas ficou deitada na cama, chorando e revivendo as boas lembranças que tinha com Hyori. Há 6 anos, antes de descobrir que estava grávida, Hae jamais diria que era uma pessoa sensível, pelo contrário, acreditava que chorar era uma demonstração de fraqueza, e que jamais faria isso, principalmente na frente de outras pessoas. Porém, Mi Cha nasceu e com a gravidez também veio um turbilhão de sentimentos que ela jamais julgasse ter. Tornou-se chorona, mesmo queimar o arroz a deixava chateada, se emocionava com histórias tristes de pessoas que sequer conhecia, e tinha explosões de raiva vez ou outra. Tudo tinha mudado em 6 anos. Mas será que Hyori havia mudado tanto assim?

Quando se deu por conta, Mi Cha entrava pelo quarto, tímida, com o tio Arthur que carregava consigo uma bandeja de café da manhã. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar, porém estavam secos. Já não tinha mais lágrimas para sair, ou ao menos assim pensava. Tão logo sua filha chegou perto da casa, Hae sentiu os olhos marejarem novamente. Sentou-se na cama e puxou Mi Cha para um abraço apertado, sentindo um estranho aperto na garganta enquanto engolia o choro.

-Obrigada, filha. E obrigada Artie. - ela sorriu para o amigo, apertando a sua mão de maneira carinhosa. Não sabia o que seria da sua vida sem aqueles dois.

__

No caminho para o endereço, Hae percebeu que o céu parecia esgotado de tanto despejar água, assim como ela própria. Estava vestindo um vestido preto de corte acinturado, justo, que quase chegava no joelho, e um sapato baixo preto. Não era seu modelito mais bonito, mas não tinha nada mais apropriado para a ocasião. Por sorte seu trabalho era flexível quanto aos horários, contanto que entregasse todas as metas a tempo, então não teve dificuldade em faltar, apenas avisou seu supervisor o motivo.

-É um local muito bonito mesmo. - concordou com Arhur enquanto passavam pelo portão principal, pensando porque jamais tinha vindo ali. Será que era considerada mesmo uma amiga de Hyori? Nunca a tinha visto fora da escola, mas se for pensar assim, jamais teria tido qualquer amiga na vida toda... - Creio que vou demorar um pouco, pode ir para casa se quiserem... Ou talvez um dia divertido no parque seja bom.

Hae sorriu para Arthur, mais uma vez grata a tudo o que fazia por ela e pela filha. Tinha pensado em levar Mi Cha para se despedir daquela que era a única pessoa que sabia da real paternidade da menina, porém julgou que seria muita coisa para que ela lidasse de uma vez só. Não que tivesse dificuldade em explicar o que significava a morte de uma pessoa, e quem era Hyori para ela. Porém, tinha certeza que encontraria muitas pessoas do colégio, e a especulação em cima de Mi Cha seria extremamente incômoda para ambas. Outro dia a levaria para a sepultura para fazerem alguma pequena oração juntas. Não precisava ser agora.

Despediu-se de Arthur com um abraço e da filha com um beijo demorado na bochecha. E, assim, saiu do carro, ajeitando o vestido.

   
xxx

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